01/04/26

 

TAXA SELIC E AS ELEIÇÕES

 

Nunca na história deste país se gastou tanto com os juros da dívida pública – um trilhão de reais em 2025. E os cálculos apontam que também será esse o montante a ser desembolsado em 2026 e 2027.

A posse de Galípolo no Banco Central gerou uma expectativa de reversão da política monetária conduzida pelos seu antecessor, contudo ele atuou em direção oposta, ao invés de iniciar um relaxamento da taxa de juros, o movimento foi de crescente elevação. A decisão do Comite de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil de reduzir a taxa Selic em 0,25%, de 15% para 14,75 ao ano, na reunião dos dias 17 e 18 de março de 2026, pouco impacta, visto que não altera as condições gerais da economia. A atual gestão do BC amplia: “(...) uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado.” (9º parágrafo da ata da 277ª reunião).

Em seu segundo parágrafo a ata afirma que: “(...) o resultado do PIB no último trimestre de 2025 evidenciou a desaceleração esperada da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho segue resiliente”, avocando o objetivo de retrair a economia como forma de conter a demanda e por extensão conter a inflação. A realidade do país necessita de outra política, só para dar um exemplo: aquela que priorize a universalização do saneamento básico, pois 30 milhões de brasileiros vivem sem acesso a água tratada e 90 milhões sem coleta de esgoto, seria o suficiente para alavancar o PIB em sucessivos anos. Considerando isso, a defesa de uma desaceleração da economia é um despautério. A macroeconomia do Banco Central é um erro.

Quanto ao mercado de trabalho resiliente cabe um esclarecimento de ordem metodológica. O OBGE divulga a taxa de ocupação e não taxa de desemprego. Embora interlocutores do governo, a imprensa e o próprio BC tomem ambas as taxas como idênticas – elas não o são. O desemprego é um grave problema social que ainda permanece oculto. A taxa de ocupação contabiliza todo e qualquer cidadão, a partir dos 14 anos de idade, que na semana de coleta da pesquisa tenha se ocupado ao menos uma hora. Segue um caso típico: se o tempo fecha e o céu fica escuro é sinal de que um temporal se aproxima, o cidadão corre para casa pega meia dúzia de guarda-chuvas, vai ao terminal de ônibus e fica por uma hora ocupado aos gritos – “Vendo guarda-chuva!”.  Se conseguiu ou não, tanto faz. Esse cidadão entra para o número dos que trabalhou na semana da pesquisa. Essa é a realidade do mercado de trabalho no Brasil. E cinicamente esse cidadão é classificado como empreendedor, candidato a empresário. Isso demonstra que as atas do Copom expressam ideologia de maneira oposta ao rigor científico.

Cabeças que não sabem ler planilhas não entendem que alguns indicadores aparentemente saudáveis mascaram uma situação febril. Famílias e empresas estão falindo. A inadimplência entre as famílias bate recordes – metade delas, 49,75% – e o comprometimento com as dívidas alcança em média 30% da renda. O total de empresas inadimplentes alcançou 8,9 milhões. Mais de 90% delas, cerca de 8,5 milhões são pequenas e médias empresas (PME) e pouco mais de 18% dessas PMEs, cerca de 1,6 milhão, são de microempreendedores individual (MEI). Os casos de recuperação judicial e extrajudicial crescem anualmente. Para 2026 estima-se que o recorde poderá ser quebrado tanto em valor como em número de empresas.

A política de auteridade é uma falácia. A geração de déficit do Estado, está diretamente relacionada com os custos da dívida pública brasileira, que é das mais caras do mundo, verdadeira fonte de especulação e de enriquecimento de uma elite rentista, nacional e internacional. Todos os anos forja-se novos déficits e novos empréstimos a juros exorbitantes que pauperizam o Estado para mantê-lo em bancarrota artificialmente. A administração pública é – então – obrigada a rolar sua dívida pública com a oferta de empréstimos a taxas mais caras e em condições cada vez mais desfavoráveis. A aristocracia financeira domina a opinião pública e os poderes do Estado, à medida que ela legisla, governa e julga. Ademais essa mesma política obriga o Estado e entregar seus bens a preço de fim de feira via privatizações, dado o crescente endividamento. 

Com uma diretoria do Banco Central em sua maioria composta por indicação do atual presidente do país a lógica segue de predomínio do financismo. Uma eventual derrota eleitoral de Lula não poderá ser justificada por interferência estrangeira, fraude, manipulação de resultado, fake news, obscurantismos etc. Nada disso esconde o fato de que a responsabilidade maior é de quem hoje governa o Brasil. Às vésperas das eleições ocupamos o podium das maiores taxas de juros do mundo.  Nesse cenário nos perguntamos qual o papel de Galípolo – seria ele um cabo eleitoral do retorno da dupla dinâmica, Paulo Guedes e Roberto Campos Neto?

 

  TAXA SELIC E AS ELEIÇÕES   Nunca na história deste país se gastou tanto com os juros da dívida pública – um trilhão de reais em 2025. ...