TAXA SELIC E
AS ELEIÇÕES
Nunca na história deste país se
gastou tanto com os juros da dívida pública – um trilhão de reais em 2025. E os
cálculos apontam que também será esse o montante a ser desembolsado em 2026 e
2027.
A posse de Galípolo no Banco Central
gerou uma expectativa de reversão da política monetária conduzida pelos seu
antecessor, contudo ele atuou em direção oposta, ao invés de iniciar um
relaxamento da taxa de juros, o movimento foi de crescente elevação. A decisão
do Comite de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil de reduzir a
taxa Selic em 0,25%, de 15% para 14,75 ao ano, na reunião dos dias 17 e 18 de
março de 2026, pouco impacta, visto que não altera as condições gerais da
economia. A atual gestão do BC amplia: “(...) uma restrição monetária
maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado.” (9º parágrafo da
ata da 277ª reunião).
Em seu segundo parágrafo a ata
afirma que: “(...) o resultado do PIB no último trimestre de 2025
evidenciou a desaceleração esperada da atividade econômica, enquanto o mercado
de trabalho segue resiliente”, avocando o objetivo de retrair a economia
como forma de conter a demanda e por extensão conter a inflação. A realidade do
país necessita de outra política, só para dar um exemplo: aquela que priorize a
universalização do saneamento básico, pois 30 milhões de brasileiros vivem sem
acesso a água tratada e 90 milhões sem coleta de esgoto, seria o suficiente
para alavancar o PIB em sucessivos anos. Considerando isso, a defesa de uma
desaceleração da economia é um despautério. A macroeconomia do Banco Central é
um erro.
Quanto ao mercado de trabalho
resiliente cabe um esclarecimento de ordem metodológica. O OBGE divulga a taxa
de ocupação e não taxa de desemprego. Embora interlocutores do governo, a
imprensa e o próprio BC tomem ambas as taxas como idênticas – elas não o são. O
desemprego é um grave problema social que ainda permanece oculto. A taxa de
ocupação contabiliza todo e qualquer cidadão, a partir dos 14 anos de idade,
que na semana de coleta da pesquisa tenha se ocupado ao menos uma hora. Segue
um caso típico: se o tempo fecha e o céu fica escuro é sinal de que um temporal
se aproxima, o cidadão corre para casa pega meia dúzia de guarda-chuvas, vai ao
terminal de ônibus e fica por uma hora ocupado aos gritos – “Vendo
guarda-chuva!”. Se conseguiu ou não, tanto faz. Esse cidadão entra para o
número dos que trabalhou na semana da pesquisa. Essa é a realidade do mercado
de trabalho no Brasil. E cinicamente esse cidadão é classificado como
empreendedor, candidato a empresário. Isso demonstra que as atas do Copom
expressam ideologia de maneira oposta ao rigor científico.
Cabeças que não sabem ler planilhas
não entendem que alguns indicadores aparentemente saudáveis mascaram uma
situação febril. Famílias e empresas estão falindo. A inadimplência entre as
famílias bate recordes – metade delas, 49,75% – e o comprometimento com as
dívidas alcança em média 30% da renda. O total de empresas inadimplentes
alcançou 8,9 milhões. Mais de 90% delas, cerca de 8,5 milhões são pequenas e
médias empresas (PME) e pouco mais de 18% dessas PMEs, cerca de 1,6 milhão, são
de microempreendedores individual (MEI). Os casos de recuperação judicial e
extrajudicial crescem anualmente. Para 2026 estima-se que o recorde poderá ser
quebrado tanto em valor como em número de empresas.
A política de auteridade é uma
falácia. A geração de déficit do Estado, está diretamente relacionada com os
custos da dívida pública brasileira, que é das mais caras do mundo, verdadeira
fonte de especulação e de enriquecimento de uma elite rentista, nacional e
internacional. Todos os anos forja-se novos déficits e novos empréstimos a
juros exorbitantes que pauperizam o Estado para mantê-lo em bancarrota
artificialmente. A administração pública é – então – obrigada a rolar sua
dívida pública com a oferta de empréstimos a taxas mais caras e em condições
cada vez mais desfavoráveis. A aristocracia financeira domina a opinião pública
e os poderes do Estado, à medida que ela legisla, governa e julga. Ademais essa
mesma política obriga o Estado e entregar seus bens a preço de fim de feira via
privatizações, dado o crescente endividamento.
Com uma diretoria do Banco Central
em sua maioria composta por indicação do atual presidente do país a lógica
segue de predomínio do financismo. Uma eventual derrota eleitoral de Lula não
poderá ser justificada por interferência estrangeira, fraude, manipulação de
resultado, fake news, obscurantismos etc. Nada disso esconde o fato de que a
responsabilidade maior é de quem hoje governa o Brasil. Às vésperas das
eleições ocupamos o podium das maiores taxas de juros do mundo. Nesse
cenário nos perguntamos qual o papel de Galípolo – seria ele um cabo eleitoral
do retorno da dupla dinâmica, Paulo Guedes e Roberto Campos Neto?