O GOL CONTRA DE GALÍPOLO
O
Comitê de Política Monetária – Copom do Banco Central anunciou dia 19 de março
uma nova elevação da taxa Selic e que irá prosseguir com a alta dos juros. Em
contraponto aos demais objetivos do governo subjaz na decisão a predominância
do fiscalismo que embaça a visão de todos os outros aspectos que compõe uma
economia. Por exemplo, os programas de transição energética sob a guarda de
Haddad e o Nova Industria Brasil sob a direção de Alckmin não adquirem a tração
que mereceriam.
O
princípio que tem orientado os agentes econômicos, tanto do mercado como do
Estado (tendo em conta que a formação da burocracia estatal ocorre no mesmo
ambiente acadêmico do setor privado), obedece à lógica fiscalista que aprisiona
a mente dos gestores públicos no Brasil. Trata-se de um entendimento de que o
Estado, na gestão macroeconômica, não pode gastar mais do que arrecada, de
prioridade no combate à inflação, de garantia da estabilidade fiscal e do
equilíbrio da relação dívida pública/PIB. Teoricamente nada contra, tudo certo!
Mas na prática são outros quinhentos.
Na
terça, dia 25 de março de 2025, o Banco Central divulgou a ata da 269ª reunião
do Copom ocorrida dias 18 e 19. A decisão unanime do comitê estava contratada
desde o final do ano passado quando foi anunciado que haveria uma escalada nos
juros para 14,25%. “Diante de um cenário mais adverso para a convergência da
inflação, o Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, ajustes de
mesma magnitude nas próximas duas reuniões.” (Ata da 267ª Reunião, 10 e 11
dezembro de 2024). Supondo que o governo Lula pautado pelo bom senso não
estivesse disposto a “quebrar” contrato para não atiçar o mercado financeiro as
duas reuniões seguintes, sob a gestão de Galípolo, ratificaram a decisão
tomada. Porém, cumprida a promessa a expectativa seria a de atender os apelos
de redução da taxa básica de juros.
O
contrassenso da deliberação foi exposto e explicitado na ata. O numeral abaixo
indica o parágrafo do qual extraímos as citações
6.
“O Comitê segue avaliando que o cenário-base prospectivo envolve uma
desaceleração da atividade econômica, a qual é parte do processo de transmissão
de política monetária e elemento necessário para a convergência da inflação à
meta.” Isso significa que a autoridade monetária empossada pelo atual governo
planeja uma desaceleração da economia, quando deveria ser o contrário, o Brasil
ainda necessita de um salto em muitos setores da economia para universalizar o
bem-estar social para o conjunto da sua população. Insiste que a convergência
para a meta da inflação deve encaminhar para um desaquecimento da economia
“(...) o arrefecimento da demanda agregada é um elemento essencial do processo
de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à
meta”. Em palavreado moderado não se intimida em sugerir que é melhor jogar o
país numa recessão a deixar flutuar a inflação. A fundamentação para isso
decorre do erro do Conselho Monetário Nacional em manter uma meta intangível de
3% de inflação ao ano justificando a política monetária contracionista
conduzida pelo BC. O argumento da autonomia do BC que desconjuga eleição do
presidente da república do colegiado que dirige o BC caiu por terra, pois 7 dos
9 diretores foram indicados pela gestão Lula 3. Falta ao governo pulso para
alterar essa política.
11.
Cedendo aos interesses do rentismo a ata esboça um cenário contraproducente que
favorece a defesa de uma nova elevação da taxa de juros ao prever que a
inflação fugirá da meta: “(...) em se concretizando as projeções do cenário de
referência, a inflação acumulada em doze meses permanecerá acima do limite
superior do intervalo de tolerância da meta por seis meses consecutivos,
contados desde janeiro deste ano. Desse modo, com a inflação de junho deste
ano, configurar-se-ia descumprimento da meta sob a nova sistemática do regime
de metas.” A ata joga incerteza ao invés de promover um cenário de reversão da
inflação e de relaxamento monetário.
19.
Após defender a escalada dos juros no parágrafo anterior optou por sinalizar
“(...) que o ciclo não está encerrado” e que a alta será de “menor magnitude”.
Reiterada a mensagem de que haverá aumento na próxima reunião a dúvida reside
em saber de quanto, podendo variar de 0,25% a 0,75%, pois foi antecipado que
será menor. É a sangria de um paciente febril. E o pior é que o mercado
financeiro segue voraz. Enquete publicada pelo jornal Valor Econômico, dia 17
de março, com instituições financeiras e consultorias indicou que o final do
ciclo de alta da taxa Selic poderá chegar a 16,25% ao ano.
Os
prejuízos dessa política são evidentes. A começar pelo tombo na popularidade do
presidente. A prosseguir nessa trilha a visão fiscalista do BC vai prevalecer o
que significará uma economia e um bem-estar social ameaçados de vir
abaixo. As expectativas racionais da área econômica do governo jogam o
Brasil em um cenário de consequências irracionais. Permanecer nessa rota é um
desatino. Os juros devem cair para alavancar os investimentos sociais, em
infraestrutura, demais áreas e desde já em inteligência artificial em função do
aspecto soberano que ela impõe aos Estados Nacionais.