27/03/25

 

O GOL CONTRA DE GALÍPOLO

  

O Comitê de Política Monetária – Copom do Banco Central anunciou dia 19 de março uma nova elevação da taxa Selic e que irá prosseguir com a alta dos juros. Em contraponto aos demais objetivos do governo subjaz na decisão a predominância do fiscalismo que embaça a visão de todos os outros aspectos que compõe uma economia. Por exemplo, os programas de transição energética sob a guarda de Haddad e o Nova Industria Brasil sob a direção de Alckmin não adquirem a tração que mereceriam.

O princípio que tem orientado os agentes econômicos, tanto do mercado como do Estado (tendo em conta que a formação da burocracia estatal ocorre no mesmo ambiente acadêmico do setor privado), obedece à lógica fiscalista que aprisiona a mente dos gestores públicos no Brasil. Trata-se de um entendimento de que o Estado, na gestão macroeconômica, não pode gastar mais do que arrecada, de prioridade no combate à inflação, de garantia da estabilidade fiscal e do equilíbrio da relação dívida pública/PIB. Teoricamente nada contra, tudo certo! Mas na prática são outros quinhentos.

Na terça, dia 25 de março de 2025, o Banco Central divulgou a ata da 269ª reunião do Copom ocorrida dias 18 e 19. A decisão unanime do comitê estava contratada desde o final do ano passado quando foi anunciado que haveria uma escalada nos juros para 14,25%. “Diante de um cenário mais adverso para a convergência da inflação, o Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, ajustes de mesma magnitude nas próximas duas reuniões.” (Ata da 267ª Reunião, 10 e 11 dezembro de 2024). Supondo que o governo Lula pautado pelo bom senso não estivesse disposto a “quebrar” contrato para não atiçar o mercado financeiro as duas reuniões seguintes, sob a gestão de Galípolo, ratificaram a decisão tomada. Porém, cumprida a promessa a expectativa seria a de atender os apelos de redução da taxa básica de juros.  

O contrassenso da deliberação foi exposto e explicitado na ata. O numeral abaixo indica o parágrafo do qual extraímos as citações

6. “O Comitê segue avaliando que o cenário-base prospectivo envolve uma desaceleração da atividade econômica, a qual é parte do processo de transmissão de política monetária e elemento necessário para a convergência da inflação à meta.” Isso significa que a autoridade monetária empossada pelo atual governo planeja uma desaceleração da economia, quando deveria ser o contrário, o Brasil ainda necessita de um salto em muitos setores da economia para universalizar o bem-estar social para o conjunto da sua população. Insiste que a convergência para a meta da inflação deve encaminhar para um desaquecimento da economia “(...) o arrefecimento da demanda agregada é um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à meta”. Em palavreado moderado não se intimida em sugerir que é melhor jogar o país numa recessão a deixar flutuar a inflação. A fundamentação para isso decorre do erro do Conselho Monetário Nacional em manter uma meta intangível de 3% de inflação ao ano justificando a política monetária contracionista conduzida pelo BC. O argumento da autonomia do BC que desconjuga eleição do presidente da república do colegiado que dirige o BC caiu por terra, pois 7 dos 9 diretores foram indicados pela gestão Lula 3. Falta ao governo pulso para alterar essa política.

11. Cedendo aos interesses do rentismo a ata esboça um cenário contraproducente que favorece a defesa de uma nova elevação da taxa de juros ao prever que a inflação fugirá da meta: “(...) em se concretizando as projeções do cenário de referência, a inflação acumulada em doze meses permanecerá acima do limite superior do intervalo de tolerância da meta por seis meses consecutivos, contados desde janeiro deste ano. Desse modo, com a inflação de junho deste ano, configurar-se-ia descumprimento da meta sob a nova sistemática do regime de metas.” A ata joga incerteza ao invés de promover um cenário de reversão da inflação e de relaxamento monetário.

19. Após defender a escalada dos juros no parágrafo anterior optou por sinalizar “(...) que o ciclo não está encerrado” e que a alta será de “menor magnitude”. Reiterada a mensagem de que haverá aumento na próxima reunião a dúvida reside em saber de quanto, podendo variar de 0,25% a 0,75%, pois foi antecipado que será menor. É a sangria de um paciente febril. E o pior é que o mercado financeiro segue voraz. Enquete publicada pelo jornal Valor Econômico, dia 17 de março, com instituições financeiras e consultorias indicou que o final do ciclo de alta da taxa Selic poderá chegar a 16,25% ao ano.

Os prejuízos dessa política são evidentes. A começar pelo tombo na popularidade do presidente. A prosseguir nessa trilha a visão fiscalista do BC vai prevalecer o que significará uma economia e um bem-estar social ameaçados de vir abaixo.  As expectativas racionais da área econômica do governo jogam o Brasil em um cenário de consequências irracionais. Permanecer nessa rota é um desatino. Os juros devem cair para alavancar os investimentos sociais, em infraestrutura, demais áreas e desde já em inteligência artificial em função do aspecto soberano que ela impõe aos Estados Nacionais.

 

 

 

 

07/02/25

 

A BIRRA DOS JUROS

 


E agora Lula?

O juro subiu

O dólar subiu

O sonho sumiu

E agora Lula?

Você é o presidente

É você quem toma as decisões

Com o poder na mão

Perdeu a utopia?

Perdeu a coragem?

E agora Lula?

 

 

A birra de Lula contra Campos Neto na presidência do Banco Central (BC) não se justificou, pois, a promessa de mudar a política monetária com Galípolo evaporou. O novo presidente do BC segue a cartilha deixada por seu antecessor.

Em retrospectiva, nestes dois primeiros anos de Lula 3, Campos Neto presidiu 16 reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária), da 252ª reunião em 01.02.23 até a 267ª em 11.12.24.

Nas quatro primeiras reuniões manteve a mesma taxa 13,75% ao ano, nas sete reuniões seguintes desafogou a economia com reduções na taxa Selic, ainda que em dose homeopática, para 10,50%, nas duas seguintes manteve no patamar e nas três últimas retomou a escalada, chegando a 12,25%. No total das 16 reuniões, em sete reduziu a taxa, em seis manteve congelada e só nas três últimas subiu.

Agora a birra maior de Lula deveria ser com Galípolo, seu preposto, uma vez que há dois sinais temerosos. O primeiro aponta para uma taxa de 15% ou mais até o final do ano e o segundo é o de que a taxa vai alcançar o nível da crise que culminou na queda de Dilma Roussef. Seria um recado de que ele poderá ter o mesmo destino?

Essa birra gerou a expectativa de que poderia haver uma mudança na política monetária. Porém, a divulgação do comunicado dia 29 de janeiro e respectiva ata da 268ª reunião na terça, 04.02.24, revela uma frustração ao anunciar uma nova elevação de 1% na Selic, chegando a 13,25%.   

A ata replica argumentos insólitos da gestão passada sinalizando que a política monetária segue perseguindo uma meta inalcançável. Destacaremos alguns trechos da ata (o numeral que antecede a citação localiza o parágrafo do documento).

6. Em seu sexto parágrafo afirma que a atividade econômica segue dinâmica afetada pelo consumo das famílias e formação bruta de capital fixo (FBCF, em outros termos significa investimento na produção). “Em particular, o ritmo de crescimento do consumo das famílias e da formação bruta de capital fixo evidencia uma demanda interna crescendo em ritmo bastante intenso”.  O que é relativo pois o que há é uma carência das famílias por bens e serviços reprimidos e essenciais à vida humana. Sobre a FBCF o que muitas indústrias estão realizando é a restauração/manutenção de equipamentos, ou quando muito, substituindo maquinário obsoleto para continuar em atividade. Lembramos que neste quesito renovação de frota de caminhões e ônibus são classificados como FBCF.

7. Reitera que o “cenário base prospectivo envolve uma desaceleração da atividade (...) elemento necessário para convergência da inflação à meta”. Confessa que possui um objetivo claro de conduzir a economia a um quadro recessivo, portanto de queda da atividade econômica e desemprego.

11. Ao invés de tranquilizar os agentes econômicos a ata gera ansiedade ao projetar que a inflação “(...) permanecerá acima do limite superior do intervalo de tolerância da meta nos próximos seis meses consecutivos”.

21. Defendeu o último ato de Campos Neto no BC e prometeu nova elevação dos juros de “(...) tal maneira que a indicação anterior de elevação de 1,00 ponto percentual na taxa Selic mostrava-se a decisão apropriada.”

22. Não bastasse isso, afaga os especuladores ao advertir que “(...) a magnitude total do ciclo de aperto monetário será ditada pelo firme compromisso de convergência da inflação à meta e dependerá da evolução da dinâmica da inflação (...)”.

Em várias passagens desta ata, e nas anteriores, alega-se a dita resiliência da economia que nada mais é que a luta dos agentes econômicos pela sobrevivência. A depender da vontade tecnocrática dos gestores do BC e do ministério da Fazenda eles deveriam renunciar à sua rotina diária de produzir as riquezas do país para alcançar uma meta inflacionária intangível.

Uma mudança de meta da inflação parece remota dado que a Resolução 5.141 do Conselho Monetário Nacional (CMN) de 26 de junho de 2024 a fixou em 3% ao ano, acumulada em doze meses, com intervalo de tolerância de 1,5% a mais ou a menos, aferida pelo IPCA calculado pelo IBGE. Já o decreto federal 12.079 do mesmo dia estabeleceu uma nova sistemática com apuração mês a mês. E em seu artigo 2º considera como descumprimento o desvio por seis meses consecutivos da faixa de tolerância. A cada trimestre o BC deverá divulgar um relatório de política monetária e sempre que houver descumprimento da meta informar os motivos por meio de nota ao referido relatório e carta aberta ao ministro da Fazenda o que poderá significar nota e carta mensais dada a sistemática semestral de controle e aferição da meta inflacionária.

Inúmeros economistas e gestores públicos alertam que o alvo de 3% a.a. é irreal para a economia brasileira. Há um clamor para que ela seja alterada para 4 ou até 5% a fim de abrandar a política monetária. O problema é que ou desconhecem ou desprezam o teor do decreto federal 12.079 em seu artigo 2º, § 2º “A meta e o intervalo de tolerância poderão ser alterados pelo Conselho Monetário Nacional, mediante proposta do Ministro de Estado da Fazenda, observada a antecedência mínima de trinta e seis meses para o início de sua aplicação”. Ou seja, o governo Lula 3 concluirá sua gestão com a camisa de força de uma meta de 3%, pois possui apenas 22 meses de mandato e as mudanças exigem antecedência de 36 meses. Ou se revoga o parágrafo acima ou vamos passar por uma conjuntura predominada pelos malefícios do rentismo indomável condenando a produção de bens e serviços, impedimento a modernização e renovação industrial abortando o programa de estímulo à produção batizado de Nova Indústria Brasil – forte, transformadora e sustentável: Plano de Ação para a neoindustrialização 2024-2026

Essa política significa:  elevação da concentração de renda condenando amplos setores da população à pobreza; asfixia das pequenas e médias empresas que poderão entrar em coma (recuperação judicial); redução da receita tributária; crescimento da proporção dívida/pib com desaquecimento da economia combinado a juros elevados e, por fim, desvio de recursos dos gastos sociais para a remuneração dos títulos da dívida pública. Ela só favorece os setores mais capitalizados da economia que suportam uma redução em seus lucros operacionais substituídos por lucros financeiros.

Isso não possui lógica. A próxima reunião do Copom deve mudar a política monetária. Por um cavalo de pau.

30/01/25

 

GALÍPOLO NO BANCO CENTRAL E NO CONSELHO MONETÁRIO NACIONAL

 

 

Galípolo como novo presidente do Banco Central (BC) não terá tempo nem uma segunda chance, deve em sua primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), agendada para 28 e 29 de janeiro, retomar a tendência de queda da taxa Selic. É crucial sinalizar que se trata de uma nova gestão. Campos Neto está fora da presidência do BC. A composição da maioria da atual diretoria do banco já é de indicação do atual governo. Não há obstáculo administrativo que impeça o início de um giro na política monetária. Um balanço da gestão passada pode ficar para a história. Agora chegou o momento de escrever uma nova.

Metade da gestão Lula 3 se foi. Há uma segunda metade que é possível ser diferente. O terceiro ano do mandato não pode gastar mais de um trilhão de reais com a dívida pública. E com a taxa Selic já contratada a 14,25% ao ano a corrida de empresas por pedidos de recuperação judicial e extrajudicial é uma possiblidade crível. Lamentavelmente esse cenário é o que está colocado pelo primeiro Boletim Focus de 2025 ao projetar a taxa Selic em 15% ao final deste ano.

Diante de um sistema econômico parasitando na especulação de papeis, o pânico, para não falar em terrorismo financeiro, é uma artimanha para arrancar lucros.  Afirmações ao estilo “a dívida pública segue trajetória explosiva, os gastos idem, a inflação é desesperadora”, não correspondem aos indicadores econômicos analisados a frio. Ao contrário, nós que não somos negacionistas, ao decompormos a inflação somos obrigados a reconhecer que as mudanças climáticas possuem um componente inflacionário: é o excesso de chuva ou seca prolongada que quebram safras, é o baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas que eleva o preço da energia, é o gasto com a compra de condicionar de ar (para sobreviver e não por luxo) que sobe a demanda de bens de industriais e assim por diante. É o imponderável na vida e na economia.

No mês de dezembro de 2024 especuladores nacionais e internacionais promoveram um ataque à moeda brasileira e aos interesses populares. O que obrigou o BC a liquidar mais de 30 bilhões de dólares das reservas cambiais. Convertendo para real, cotado a 6 por dólar, o governou liquidou 180 bilhões de reais em apenas um mês. O mercado ficou desgostoso com a “timidez” do pacote de cortes que manteve os pisos constitucionais da saúde e educação. A promessa inicial das medidas anunciadas pelo ministério da Fazenda ao final de novembro era de economizar 326,9 bilhões de reais de 2025 a 2030. Com os leilões de dólares em um mês gastou-se a metade de toda a economia prevista com as medidas. O anúncio dos cortes não foi somente um erro de comunicação como também uma iniciativa errada.

O pânico construído pelo mercado, forma de alavancar seus ganhos, não deve ser combatido com declarações de boa fé dos gestores públicos, mas com medidas concretas que estabeleçam o controle das rédeas da economia.

Adentramos 2025 com o dólar acima de seis reais o que se constitui na principal ameaça à estabilidade dos preços neste início de ano. O governo possui meios de orientar a economia. Uma certa permissividade na gestão do câmbio em dezembro para saciar a voracidade do mercado deixará uma herança inflacionária ao longo de 2025. A nova diretoria do BC deve atuar com pulso e sem comprometer nossas reservas cambiais, que somavam 355,034 bilhões de dólares (valor bruto) no final de 2023, mas que dia 20 de dezembro de 2024 possuía um saldo líquido de 242,532 bilhões de dólares, 112,502 bilhões a menos em um ano.

Outro passo deve ser demolir as falácias do mercado. A iminência do risco de uma dominância fiscal se instalar no Brasil deve ser afastada pois não há fundamentos que sustentem essa hipótese, desde que a taxa de juros comece a entrar em queda. A possibilidade de uma recorrente elevação da taxa Selic combinada a um descontrole inflacionário é imaginária. A dívida pública do país não está fora de controle, pois segue abaixo na relação dívida/PIB se comparada com a do Japão 252%, Itália 132% e EUA 122%. Para novembro de 2024 a brasileira estava em 77,7%. E a inflação, também, não está fora de controle. A sua meta é que está em um patamar descabido, de 3% ao ano. Compete ao Conselho Monetário Nacional (CMN) rever a meta, pois agora sai Campos Neto e entra Galípolo ao lado de Haddad e Simone Tebet.

Para 2025 uma nova situação deve se abrir, pois após a reunião do CMN de junho de 2023 foi anunciado que a meta da inflação deixará de ser aferida pelo ano calendário de janeiro a dezembro para ser contínua com referencial de 24 meses. A mudança entra em vigor a partir deste mês com intervalo de tolerância de 1,5%. Só está faltando uma primeira reunião do conselho com a presença de Galípolo para alterar a meta inflacionária e dessa forma desafogar o custo da moeda. Proposição essa que, inclusive, já foi motivo de declaração do presidente da república. É simples o resumo: reunir o CMN para alterar a meta da inflação e derrubar a taxa Selic na próxima reunião do Copom.

 

28/11/24

 

O PRONUNCIAMENTO DE HADDAD E O INSUSTENTÁVEL PESO DO ARCABOUÇO FISCAL

 

Se o regime político do Brasil fosse o parlamentarismo caberia ao chefe de Estado, diante do resultado das eleições municipais, solicitar um voto de confiança ou dissolver o Congresso e convocar novas eleições. Essa é a dimensão da crise – estamos diante de um governo combalido. Ele segue em corda bamba, ora caindo à direita, ora à esquerda – de um lado a pressão por aprofundar a perspectiva neoliberal/fiscalista e de outro a tentativa de se reerguer no apoio popular.

O resultado das urnas foi um cavalo de pau no PT. A proposta de isenção do imposto de renda até a faixa de R$ 5 mil, promessa de campanha que até agora estava engavetada, é uma forma de se recompor com uma base eleitoral que não votou no partido. O carimbo eleitoral da proposta é tal que entrará em vigor somente em 2026, ano de eleição.

Dado que não vigora o parlamentarismo no Brasil o presidente Lula determinou ao seu subordinado Fernando Haddad, Ministro da Fazenda, realizar um pronunciamento à nação em cadeia de rádio e televisão na noite de 27 de novembro de 2024, tentando conjugar os apertos nas contas públicas com a implementação de uma necessidade popular de reajuste da tabela do imposto de renda.  Quando lembramos que Haddad é um servidor do governo desejamos ressaltar que não existe uma política do Lula presidente e uma do ministro. Há um governo e uma só política. Se coerente, podemos indagar.  

Na manhã seguinte, dia 28, em entrevista coletiva o ministro Haddad detalhou alguns itens propostos:

o   Salário-Mínimo terá reajuste de acordo com a banda do arcabouço fiscal, piso de 0,6 e teto de 2,5%;

o   Benefício de Prestação Continuada (BPC) será auditado;

o   Abono salarial gradualmente reduzido para 1,5 salário-mínimo;

o   Bolsa Família biometria e recadastramento periódico;

o   Emendas Parlamentares destinarão metade do valor para saúde;

o   Forças Armadas terá fim da morte ficta (transferência de pensão aos familiares quando punidos) e idade mínima para ida a reserva;

o   Supersalários serão rediscutidos;

o   Fundeb incorpora investimentos na expansão das escolas de ensino integral e inclusão de programa “Pé de Meia” no orçamento do MEC;

o   Vale Gás será incluído no marco do arcabouço fiscal;

o   Subsídios e subvenções serão rediscutidos;

o   Desvinculação de Receitas da União (DRU) prorrogada até 2030.

Algumas medidas poderão ser executadas de imediato pois o governo possui os meios administrativos necessários. Outras demandam negociação no Congresso Nacional. Aí é imprevisível saber o que pode ser aprovado ou rejeitado.

A situação resulta do fato de que todos, tanto mercado como analistas críticos, sabiam que o arcabouço fiscal não se sustenta. Suas contas não fecham. As medidas anunciadas são tímidas diante das inconsistências que o marco fiscal impõe. O propósito de garantir e reforçar a atual política fiscal fatalmente naufragará. Nas palavras do próprio ministro caso não se comprima as despesas os gastos obrigatórios irão ganhar maior volume e comprimir cada vez mais os gastos discricionários (livres). As estimativas de poupar R$ 70 bilhões nos próximos dois anos estão baseadas em projeções otimistas. O horizonte de ampliar a arrecadação é um pouco irreal. A cobrança de imposto de renda para ganhos superiores a R$ 50 mil apenas compensa a isenção da tabela de quem ganha até R$ 5 mil. Isso se a conta fechar.

Devemos educar e esclarecer a sociedade que comportamento da Bolsa de Valores, do mercado financeiro e cambial deve deixar de ser referência para o universo decisório da política e da economia. Foi-se a época em que serviam de termômetro. Antes a especulação decorria de um mecanismo de causa e efeito em que se perdia na baixa e se ganhava na alta. Hoje, em função das mudanças tecnológicas e de uma nova cultura as ações, os títulos e as moedas rodopiam desgovernadamente, visto que, é possível ganhar na baixa e perder na alta de preços. A lógica do passado mudou. Portanto, o pico do dólar no dia 27 ao bater em R$ 5,91 antes do pronunciamento está em função de ganhos de oportunidade. Na manhã do dia 28 bateu em R$ 6. O mercado sabota a iniciativa do governo. Na queda de braço com o governo o mercado aposta na desvinculação dos pisos da educação e saúde, essa é a razão da sua revolta. E isso é imexível.

 

 

19/11/24

JUROS E RETÓRICAS ENGANOSAS

 

Dia   14 de novembro de 2024 o Comitê de Política Monetária – Copom – do Banco Central (BC) do Brasil publicou a ata da 266ª reunião ocorrida dias 5 e 6 de novembro que elevou a taxa de juros em meio ponto percentual, passando para 11,25% ao ano. O presidente da República que poderia ter demitido Campos Neto desde o início de seu mandato, revogado a lei que concedeu autonomia ao BC e alterado o processo de indicação de seu presidente do BC ficou em silêncio.

Antes disso, em setembro, por ocasião da 265ª do Copom primeira reunião já sob a transição de um novo presidente, foi votado, por unanimidade, um aumento dos juros da taxa Selic. Estimou-se que o aumento de 0,25%, nesta reunião, elevando a taxa de 10,5% para 10,75% ao ano representará um aumento de R$ 13 bilhões nos gastos com remuneração dos títulos públicos. Agora, com a subida em 0,5% o gasto vai dobrar, para mais de R$ 26 bilhões em doze meses, totalizando presumidos R$ 40 bilhões, cifra próxima do corte de gastos que o governo pretende anunciar. Essa matemática prova que é o mecanismo da dívida que estrangula a economia.

Longe de parecer uma decisão técnica a definição da taxa básica de juros é uma decisão política. Ela é a base de referência para inúmeros contratos que afetam diretamente a vida das pessoas, desde os financiamentos de imóveis, passando por empresas que almejam ampliar sua capacidade produtiva ou renovar suas máquinas, chegando ao preço da alface na medida em que serve para definir os juros do financiamento agrícola.

Habitualmente às vésperas de cada reunião do Copom o jornal Valor Econômico publica um levantamento com agentes financeiros que opinam qual deve ser a decisão sobre os juros. No dia 04.11.24, o jornal informou que de 125 instituições financeiras consultadas, 122 defendiam um aumento de 0,5% e apenas 3 um aumento de 0,25%. Diante do resultado da enquete não havia dúvidas sobre a real decisão do comitê e a aposta foi por acelerar a elevação. Porém, o mercado financeiro deseja mais, na mesma edição do jornal, Fernando Genta economista-chefe da XP Asset Management declarou: “Para que a inflação venha a convergir à meta de 3% dentro do horizonte relevante, o Copom teria de aumentar a Selic para, pelo menos, 15% no atual ciclo de aperto monetário (...)”.

 

GALÍPOLO NA PRESIDÊNCIA DO BC

 

Em janeiro de 2025 o BC terá um novo presidente, dessa vez indicado por Lula – Gabriel Galípolo, o atual diretor de política monetária, embora não tenha tomado posse, ele não é o presidente de jure (de direito) mas é, desde sua indicação, o presidente de facto (de fato).  Neste intervalo os juros já subiram 0,75%. Como indicado pelo atual governo não deveria ele ter votado nas duas ocasiões contra a impopular elevação dos juros?

Essa foi a primeira reunião com Gabriel Galípolo já aprovado como futuro presidente do BC em sabatina no Senado.  Egresso do sistema financeiro, pois foi presidente do Banco Fator de 2017 a 2021, pretende aprofundar a autonomia do BC ao se declarar favorável à Proposta de Emenda Constitucional PEC 65 que concede autonomia financeira e orçamentária ao banco segundo declaração do senador Plínio Valério do PSDB do Amazonas ao jornal O Estado de S. Paulo de 07.09.24. A gestão Lula-Alckmin, em demonstração de fraqueza, não revogou a autonomia do Banco Central e agora o sistema financeiro patrocina a  PEC 65.

O atual governo em breve terá a maioria dos diretores do BC. Contudo, creditar que uma eventual maioria de votos no Copom altere a condução da política monetária é desconhecer a supremacia que o poder financeiro possui sobre todas as demais instituições da sociedade brasileira.

Ironicamente foi José Serra, fundador do PSDB, que ocupou inúmeros cargos públicos sempre em defesa do neoliberalismo do seu partido, quem revelou a “amorosa” relação, entre “servidores públicos” do BC e os bancos: É inconcebível que o Banco Central receba duas dúzias de agentes do mercado e converse com eles a portas fechadas. Assim como é absurdo que numa ligação de celular se discuta com um banqueiro o nível da taxa de juros. Meu primeiro pedido, então, a Galípolo é autonomia de verdade e transparência de fato no relacionamento com o mercado e o cidadão” (O Estado de S. Paulo 12.09.24). Haverá mudanças?

 

CRESCENTE FINANCEIRIZAÇÃO

 

O BC na gestão Campos Neto trava uma guerra contra os interesses populares. Ele combate a todo custo o crescimento do emprego e da economia com a desculpa de controlar a inflação.

A lógica da financeirização trava o desenvolvimento industrial e joga o país em crescente atraso. Ao invés de estimular o desenvolvimento de novos produtos e novas fábricas, o que se conhece por formação bruta de capital fixo (em contradição com os ganhos de capital financeiro) o empresário opta por gerar renda em papeis, inclusive manipulando o mercado (em muitos casos comprando e vendendo as ações de sua própria empresa) além dos papeis públicos. A remuneração crescente dos títulos públicos e ações fomentam a desindustrialização.

Como essa é a lógica – ganhar dinheiro financeiramente – aos especuladores pouco importa a economia real, o emprego, os trabalhadores. Muito mais que pretensa concorrência de produtos chineses a premissa de ganhar dinheiro no mercado financeiro é que desestimula a produção industrial no mercado interno favorecendo a desindustrialização. As fortunas estão sendo criadas via inflação financeira dos mercados de ações/títulos e elevação de valores promovida por alavancagem (o popular – comprar fiado) em um mecanismo de endividamento generalizado e crescente.

Em contrapartida se houvesse por parte dos economistas ditos progressistas e do governo empenho em modificar a política econômica em detrimento do capital financeiro e em benefício da reindustrialização do país, com a criação de emprego e distribuição de renda, um dos pontos a ser desmistificado seria o da relação dívida/PIB. Das sete maiores economias capitalistas apenas a Alemanha mantém uma relação dívida/PIB abaixo da brasileira.

Inexistem argumentos. De todos os lados, apenas conveniências retoricas. A mídia corporativa e a oposição pautados pela conveniência não comparam o quadro da dívida pública brasileira com a dos países centrais.  Omitem despudoradamente que há margem para ampliar a dívida pública sem quebrar a economia. Nos países do G7 o percentual é superior a 100%, exceto Alemanha. Enquanto isso, a dívida bruta do governo geral brasileiro que abrange Governo Federal, INSS, governos estaduais e municipais – atingiu 78,3% do PIB (R$ 8,9 trilhões) em setembro de 2024 (Banco Central do Brasil. Estatísticas Fiscais – 11.11.24). Entretanto, obrigada a cobrir os eventos do G20, a mídia repercutiu um relatório do Conselho de Estabilidade Financeira (uma agência global informal de regulação do setor financeiro) que estimou quanto cada país paga de juros de sua respectiva dívida pública em relação ao PIB e sem surpresa o Brasil lidera o ranking, cf. tabela abaixo. Para um PIB de R$ 10,9 trilhões gastamos R$ 649 bilhões com pagamento de juros em 2023 (Valor Econômico 19.11.24)

 

 

 

dívida pública X pagamento de juros

G7  +  Brasil

dívida pública, em % do PIB

pagamento de juros, em % do PIB

Estados Unidos

122,1

3,01

Reino Unido

101

2,46

Alemanha

64,2

0,69

França

110,6

1,68

Japão

252,3

0,12

Itália

137,2

3,61

Canadá

107,1

0,5

Brasil

84,6

5,96

fonte: Relatório do FSB para o G20/BIS, FMI, JP Morgan, cálculos do FSB, Valor Econômico

 

DECRESCENTE RENTABILIDADE

 

Uma taxa de juros elevada reduz a rentabilidade das empresas. Ela não pode superar a taxa bruta de lucro do capital industrial. Quando isso ocorre há um estímulo direto à desindustrialização. Exemplificamos com uma simulação: se um investimento industrial tem retorno de 10% ao ano e os investimentos em papeis tem uma rentabilidade de 11,25% a.a. a figura do empresário desaparece e predomina a do especulador financeiro.

Há uma hipótese que atribui a origem das crises capitalistas a uma tendência de queda da rentabilidade. No cenário global de predomínio das finanças é possível conceber que ao se elevar a taxa de juros isso acarrete uma queda relativa da taxa média de lucro. Exemplificando: se temos uma taxa de juros de 11,25% ao ano um empresário calcula que qualquer investimento industrial deve garantir um retorno de no mínimo 12% ao ano, para dessa forma justificar seu empenho de capital. Ao se elevar progressivamente a taxa de juros a rentabilidade industrial cai. Se um empresário tem uma rentabilidade de 10% ao ano e a taxa de juros garante uma remuneração de 11,25% a.a. ele não hesitará em alocar seu dinheiro em papeis que remunerarão seus recursos acima de um investimento produtivo. Ao exercer uma força magnética de atração permanente para uma acumulação financeirizada a economia perde impulso real na esfera da produção de bens materiais e serviços, ela se desindustrializa. Esse, também, é o mecanismo que explica porque atualmente muitas empresas compensam seus prejuízos operacionais com lucros financeiros.

Embora a economia esteja financeirizada o eixo sob o qual o sistema capitalista gira é a produção e circulação de mercadorias. Os níveis mais avançados de especulação são um sintoma de uma superprodução de bens (expressa em termos relativo pelos níveis de ociosidade), que é em essência um processo artificial de aquecimento da economia. Desde a quebra da bolsa de Nova York em 1929 predomina a visão de que a crise explode no âmbito da especulação e atinge a produção e circulação de bens e serviços. Portanto, na aparência seria a especulação a causa das crises e seu impacto sobre a economia real seria a consequência do colapso especulativo. É o contrário: a crise tem sua origem na produção (queda da rentabilidade e consequente queda nos investimentos) e daí contagia o mercado financeiro.

O tempo de impacto dos juros varia de acordo com o setor econômico: bancos e comércio podem no dia seguinte rever suas taxas de empréstimo repassando-as ao consumidor. Já o setor industrial depende de tempo para o planejamento de suas atividades e repasses, da mesma forma que um projeto demora, desde sua ideia inicial até sua confecção, oscilações para cima na taxa de juros afetam investimentos na produção e circulação de mercadorias.

Entre as disjuntivas capital ou trabalho/finanças ou produção a resposta do governo deveria ser trabalho e produção.

 

 

 

23/08/24

 

OS GATILHOS DA QUEDA DA BOLSA DE TÓQUIO

  

Bolsas de Valores vivem de especulação. Na alta dos preços das ações se embriagam, na queda a ressaca provoca tombos. Foi isso o que aconteceu na Bolsa de Valores de Tóquio na segunda dia 5 de agosto de 2024. Essas oscilações fazem parte da rotina diária da movimentação de compra e venda das ações. Em alguns casos afetam o conjunto das ações negociadas, ocasionado uma queda generalizada. No jargão dos especuladores é o movimento de correção dos preços das ações. A detonação de uma crise demanda uma conjunção de fatores. Claro que o estouro de uma bolha pode deflagar uma crise global do sistema financeiro, porém outros elementos devem comparecer como queda na taxa de lucros, redução dos investimentos e baixa demanda de bens e serviços. O mercado capitalista (títulos/ações, comercial, industrial, financeiro, agrícola)  vive em crise sistêmica. Contudo um tombo abrupto não gera como efeito imediato uma recessão ou depressão. Tanto é que ao longo da semana as bolsas se recuperaram.

Na busca insana pela rentabilidade instantânea por meio da especulação bursátil o capital não sustenta seu sistema nem mesmo a curto prazo, pois a sociedade demanda a produção de valores de uso. O investidor depende da geração de lucro do setor produtivo, carece explorar o trabalhador que produz a riqueza. O que mais uma vez confirma a elaboração teórica de que nas camadas subterrâneas do capitalismo vigora a lei do valor. Caso uma ação (título) não expresse as reais margens de lucro da empresa ela passa a refletir uma margem de capital fictício. Daí é um passo para sua queda.

 

PRIMEIRO GATILHO

 

No dia 31 de julho de 2024 o Banco do Japão divulgou uma alta da taxa básica de juros, que era negativa (juros abaixo da inflação)  de – 0,1%  para uma taxa de 0,25% ao ano. Dois dias depois, na sexta dia 2 de agosto, sob o impacto da nova política monetária a bolsa de Tóquio caiu 5,8%. Na abertura do mercado, segunda dia 5, a queda foi muito maior – fechando com prejuízo de 12,4%.

Nesta “segunda feira negra” (apelidada desta forma em referência à segunda feira dia 19 de outubro de 1987 ocasião em que a bolsa de Nova York caiu 22,61%)  os 10 bilionários mais ricos do mundo perderam US$ 45 bilhões. As Magnificent Seven (Sete Magníficas ou MAG7) Alphabet (Google), Apple, Meta (Facebook e WhatsApp, Instagram), Microsoft, Amazon, Nvídia e Tesla perderam US$ 600 bilhões em valor de ações: Nvídia caiu 13%, Apple 7,1% e Tesla 8,7%. No Brasil a rotina da bolsa não foi afetada pois caiu apenas 0,46%. Um percentual coerente com as margens de flutuação diária.

A consequência imediata da elevação dos juros no Japão foi encarecer a prática do carry trade que  consiste no empréstimo em uma moeda (no caso o iene) para investir em ativos de maior rendimento em outra moeda. Exemplificando: um grande banco internacional toma dinheiro emprestado no Japão em  iene com  taxas de juros a 0,25% ao ano e investe esse mesmo dinheiro em títulos da dívida pública brasileira que paga 10,5% ao ano. O lucro é fabuloso. Sem nenhum lastro com a produção real de mercadorias é dinheiro gerando dinheiro. Quando não compram títulos da dívida pública, seja do Brasil ou qualquer outro país (EUA, Argentina etc.) compram ações de empresas nas bolsas de valores do mundo o que também favorece a criação de bolhas especulativas que em algum momento estouram. Ou seja, parte do crescimento artificioso das ações decorre de compras a crédito: emprestava-se ienes para a aquisição de ações e títulos e agora com a elevação dos juros no Japão a expectativa é de que o preço das ações possa cobrir os empréstimos que ficaram mais caros, caso contrário o prejuízo será enorme. John Plender em artigo publicado pelo Financial Times e republicado pelo jornal Valor Econômico dia 13.08.24 afirmou:  “(...) os investidores poderão ter que encontrar até US$ 1,1 trilhão para quitar os empréstimos relacionados às operações de carry trade de Iene.”

Sob o fantasma da quebra da bolsa de Nova York em 1929, que deflagou uma grande depressão, toda vez que as bolsas passam por um solavanco analistas, à esquerda e à direita,  anunciam o início de uma recessão ou depressão. Contudo não há uma relação imediata e mecânica entre o estouro de uma bolha especulativa e o início de uma crise econômica.

Os investidores, melhor seria dizer especuladores, precificam as ações pelos boatos de lucro ou prejuízos, pelas subjetividades e pelas expectativas racionais, mas também irracionais. Daí a capitalização de mercado de uma empresa poder ser várias vezes seu lucro anual. Todo esse movimento repentino de queda talvez não passe de uma “correção” no valor das ações, pois logo na semana seguinte as bolsas voltaram à normalidade.

 

SEGUNDO GATILHO

 

Na sexta dia 2 de agosto foram divulgados os dados sobre emprego nos EUA com indicativo de desaceleração econômica. Em maio a taxa de desemprego subiu para 4%, em junho foi para 4,1% e em julho atingiu 4,3%. O cenário é mais complexo pois, de fato, o rumor de recessão nos EUA possui fundamentos. Destacamos dois aspectos: 1) o mercado de trabalho e 2) o tímido desempenho da economia apesar das guerras contra a Ucrânia e a Palestina. No entanto, é necessário entender o mercado de trabalho dos EUA e suas estatísticas. No referido mês de maio os empregos de meio período cresceram 286 mil vagas e os empregos de tempo integral caíram 625 mil vagas. Em doze meses, de maio de 2023 a maio de 2024, as vagas de emprego em tempo integral recuaram 1,1 milhão de postos de trabalho e as vagas de tempo parcial aumentaram 1,5 milhões. Caso as contratações de tempo parcial fossem convertidas em tempo integral a taxa de desemprego seria muito maior. Por isso, devemos considerar que as vagas de tempo parcial, significam metade do salário o que não garante sobrevivência digna ao trabalhador, que para seu sustento necessita de dois empregos parciais. Embora o aumento da taxa de desemprego não seja dos mais significativos, chama atenção o fato de que em plena corrida militar os EUA, como principal provedor de armas e munições para a Ucrânia e Israel, não consiga sustentar seu nível de atividade econômica. Esse fato nega o que sempre foi visto como certo: de que uma guerra impulsiona o crescimento econômico. De um lado, perante a conjuntura atual essa hipótese no caso estadunidense está sendo negada. De outro, os esperados efeitos das sanções sobre a Rússia não surtiram o resultado previsto. Enquanto o PIB dos EUA em 2023 cresceu 2,5% o da Rússia cresceu 3,6% (1,1% a mais que o estadunidense), o da zona do euro subiu módicos 0,4% (quase nulo) e o PIB da Alemanha recuou em – 0,2%.

 

TERCEIRO GATILHO

 

A publicação dos balancetes trimestrais das MAG7 apesar de positivo foram lidos pelo mercado financeiro com certa cautela em função dos vultosos recursos aplicados em Inteligência Artificial, dados os riscos em função do retorno não ser imediato, e dos gastos elevados de energia que eles representarão.

Embora não esteja no horizonte mental dos especuladores os grandes avanços tecnológicos, desde a revolução industrial na Inglaterra do século XVIII, não são incorporados de modo automático e nem se generalizam de imediato proporcionando uma elevação instantânea da taxa de lucro. O mercado de ações, todavia, possui uma outra cultura. Nele difunde-se a ideia de que uma nova tecnologia garante lucro real e imediato. Como efeito do falatório as ações sobem, mas ao se descobrir que não houve aumento efetivo dos lucros as ações caem. Essa é a dinâmica das bolhas especulativas.

No entanto, nem tudo é economia, interferências políticas também ocorrem. Vide o caso da Intel que frustrou o mercado. Em notícia divulgada pelo jornal Valor Econômico dia 2 de agosto de 2024 está dito que a empresa irá demitir 15% de sua força de trabalho (15 mil trabalhadores)  e antecipou que não pagará dividendos no quarto trimestre de 2024. Frente às duas notícias ruins  suas ações caíram 26% na bolsa de Nova York. A diretoria executiva da empresa alegou que “(...) tem enfrentado problemas no mercado de processadores para data centers, ao perder espaço para a rival AMD, que tem investido pesado na fabricação de chips”. O que pode ser verdade, mas dois outros fatores contribuíram para a crise da empresa: 1) os altos investimentos em Inteligência Artificial e a consequente descoberta de que o retorno não será imediato; 2) Biden e Trump, com tom de voz e vocabulário distintos, elegerem a China como grande inimiga, e nesse contexto Biden impôs à Intel desinvestimento na China e a proibição da venda de chips de computador, causando a perda de 40% de seu mercado comprador. Diante dessa realidade a empresa não teve alternativa a não ser demitir e ver suas ações despencarem na Bolsa de Valores (elemento importante que não foi noticiado pelo jornal e demais órgãos da imprensa corporativa)

 

COMPASSO DE ESPERA

 

Neste fim de mandato do governo Biden pode ser que se esteja acelerando os conflitos antes da posse da nova gestão, para que não haja saída a não ser dar continuidade as agressões militares em curso: Ucrania, Palestina e outras que possam vir, além de forçar uma guerra civil na Venezuela. Há uma enorme expectativa de quem vencerá a corrida eleitoral nos EUA. Muitas decisões e desdobramentos políticos e econômicos estão suspensos no ar, proteladas até que se saiba quem irá governar. As eleições nos EUA são a verdadeira fonte de volatilidade do mercado financeiro, entretanto não se trata de saber quem ganha, mas de saber como reagirá aquele que perder: aceitará? alegará fraude? mobilizará contra o vencedor? promoverá algum golpe? Tentará a deposição de quem ganhou?

 

 

 

 

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